
Instalado na 61ª Bienal de Arte de Veneza, o Pavilhão do Brasil apresenta a exposição “Comigo Ninguém Pode”, que reúne obras de Adriana Varejão e Rosana Paulino em um diálogo inédito.
A mostra, com projeto curatorial de Diane Lima, ocupa integralmente o espaço com obras históricas das artistas, que têm, cada uma, mais de três décadas de carreira e se tornaram nomes relevantes da arte contemporânea brasileira.

A iniciativa é assinada pela Fundação Bienal de São Paulo, em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, com oferecimento da Petrobras.
A pré-abertura do Pavilhão acontece de 5 a 8 de maio, e a abertura oficial do evento será no sábado (9 de maio). A Bienal de Arte de Veneza segue até 22 de novembro de 2026, na cidade italiana.
O título da exposição evoca a planta homônima, conhecida tanto por sua toxicidade quanto por seu uso popular como símbolo de proteção e resiliência. Essa ambiguidade orienta o projeto: a exposição propõe formas de perceber as relações entre natureza, história e espiritualidade, rompendo a linearidade do tempo para articular processos de metamorfose e liberação poética.

A mostra também desafia a arquitetura moderna do Pavilhão, criando uma experiência instalativa em que o edifício se torna parte ativa do trabalho, reunindo pinturas, esculturas e desenhos escolhidos por meio de sobreposições, tensionamentos e aproximações simbólicas, cromáticas, matéricas e iconográficas.
“O projeto faz um convite para que nos conectemos a uma frequência que abre a possibilidade de ver o transcendente no visível”, afirma Diane Lima.
“’Comigo Ninguém Pode’ reflete sobre as manifestações da fé e da espiritualidade na cultura brasileira, destacando sua estreita relação com a natureza e com as dimensões mais-que-humanas. Ao reescrever a história, a exposição reconstrói as paredes da memória e atribui novos significados às ruínas e feridas coloniais por meio de seres fantásticos, celestiais e mágicos”, complementa a curadora.

“Meu trabalho e o de Rosana Paulino se cruzam na potência das feridas coloniais”, afirma Adriana Varejão. “Trabalhei intensamente em muitas obras novas para o Pavilhão que foram pensadas em diálogo direto com a arquitetura do edifício. As pinturas se distribuem de maneira imprevisível no espaço, assumindo um caráter instalativo.”
Para Rosana Paulino, “estar no Pavilhão do Brasil em Veneza, ao lado de Adriana Varejão, é a oportunidade de investigar feridas coloniais a partir de perspectivas femininas distintas que se encontram num diálogo inédito”.

“Em trabalhos como ‘Aracnes’ e ‘Ninfa Tecendo o Casulo’, retomo a imagem da mulher negra como aquela que extrai do próprio corpo a matéria para sustentar a continuidade, obras que afirmam a força da reconstrução, da sutura e da permanência diante da violência histórica”, diz Rosana.
Diane Lima destaca: “Desde o momento em que surgiu a ideia de convidar Rosana e Adriana, meu maior desafio foi apresentá-las como uma composição, uma única voz repleta de harmonias e dissonâncias, de modo que este gesto e as nossas próprias presenças tivessem, como num jazz, uma dimensão muito mais performativa e sensorial do que didática sobre a nossa história.”

Para Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, a curadoria de Diane Lima e o encontro entre Adriana Varejão e Rosana Paulino consolidam um célebre projeto para a presença brasileira em Veneza.
“É uma proposta que fundamenta nosso compromisso institucional com uma participação consistente, contemporânea e conectada ao debate global.”

Recuperação do Pavilhão do Brasil
O Pavilhão do Brasil, projetado por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral em 1964, foi recuperado pela Fundação Bienal de São Paulo em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores.
O processo foi realizado em três fases: a primeira concentrou-se em reparos estruturais essenciais; a segunda recuperou elementos-chave do projeto arquitetônico original, mais notadamente as paredes laterais de vidro e a fachada do Pavilhão; e a fase final foi concluída em 2026.

Sobre Diane Lima
Diane Lima (Mundo Novo-BA, Brasil, 1986) é curadora, pesquisadora e uma das principais vozes do feminismo negro na arte da América Latina. Foi parte do coletivo curatorial de coreografias do impossível, a 35ª Bienal de São Paulo (2023), e assina a curadoria de exposições como Paulo Nazareth: Luzia, no Museo Tamayo (Cidade do México, 2024) e O rio é uma serpente, a 3ª Trienal de Artes Frestas (2020/2021).
Também organizou o programa Diálogos Ausentes no Itaú Cultural (2016–2017), que desempenhou um papel histórico na virada anticolonial da arte contemporânea brasileira.
Entre os reconhecimentos recentes estão sua nomeação como vice-presidente do Conselho Consultivo Científico da documenta e do Museum Fridericianum gGmbH (2025, Alemanha) e a premiação pela Ford Foundation Global Fellowship (2021).
Diane é autora e editora da antologia Negros na Piscina: Arte Contemporânea, Curadoria e Educação (2024), que documenta os últimos dez anos de debates sobre racialidade e arte no Brasil. Também foi nomeada curadora-chefe do 39ª Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo (2026).
Sobre Adriana Varejão
Adriana Varejão (Rio de Janeiro, Brasil, 1964) desenvolve, desde os anos 1980, uma obra marcada por reflexões críticas sobre o colonialismo e a formação plural da cultura brasileira.
Realizou exposições panorâmicas em instituições como Centro de Arte Moderna Gulbenkian, em Lisboa; Pinacoteca de São Paulo; Haus der Kunst (Munique); Museo Tamayo (Cidade do México); ICA (Boston); Malba (Buenos Aires); Hara Museum (Tóquio); e Fondation Cartier (Paris).
Também participou das bienais de São Paulo, Sydney, Havana, Liverpool e Istambul. Ao longo de sua trajetória, recebeu importantes reconhecimentos como a Ordem do Mérito Cultural, do Ministério da Cultura do Brasil, e a condecoração Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês.
Suas obras integram coleções de museus como Tate Modern (Londres), Metropolitan Museum of Art e Guggenheim (Nova York), Dallas Museum of Art, Stedelijk Museum (Amsterdã), Fundação Serralves (Porto), Museo Reina Sofía (Madri) e MASP (São Paulo). No Instituto Inhotim, em Brumadinho – MG, possui um pavilhão permanente dedicado à sua obra.
Sobre Rosana Paulino
Rosana Paulino (São Paulo, Brasil, 1967) vive e trabalha em São Paulo. Doutora em artes visuais e bacharel em gravura pela Escola de Comunicações e Artes da USP, é também especialista em gravura pelo London Print Studio.
Reconhecida como uma das artistas mais relevantes de sua geração, recebeu prêmios de grande prestígio, como o Konex Mercosur: Artes Visuais (Argentina, 2022), MUNCH Award (Noruega, 2024), Jane Lombard Prize (Estados Unidos, 2025) e Black Mountain College (Estados Unidos, 2025).
Sua obra integra os acervos de importantes instituições, entre elas: MAM SP, Pinacoteca de São Paulo, MASP, Malba (Buenos Aires), Pérez Art Museum (Miami) e The Studio Museum in Harlem (Nova York), MoMA, (Nova York), University of New Mexico Art Museum (Albuquerque), Harvard Art Museums (Cambridge), Tate Modern (Londres) e Centre Pompidou (Paris).
Sobre a Fundação Bienal de São Paulo
Estabelecida em 1962, a Fundação Bienal de São Paulo é uma instituição privada sem fins lucrativos e vinculações político-partidárias ou religiosas, cujas ações visam democratizar o acesso à cultura e estimular o interesse pela criação artística.
A Fundação realiza a cada dois anos a Bienal de São Paulo, a maior exposição do hemisfério Sul, criada em 1951, e suas mostras itinerantes por diversas cidades do Brasil e do exterior.
A instituição é também guardiã de dois patrimônios artísticos e culturais da América Latina: um arquivo histórico de arte moderna e contemporânea referência na América Latina (Arquivo Histórico Wanda Svevo), e o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, sede da Fundação, projetado por Oscar Niemeyer e tombado pelo Patrimônio Histórico.
Também é responsabilidade da Fundação Bienal de São Paulo a tarefa de idealizar e produzir as representações brasileiras nas Bienais de Veneza de arte e arquitetura, prerrogativa que lhe foi conferida há décadas pelo Governo Federal em reconhecimento à excelência de suas contribuições à cultura do Brasil.
Pavilhão do Brasil – 61ª Bienal de Arte de Veneza
Endereço: Giardini Napoleonici di Castello, Padiglione Brasile, 30122, Veneza, Itália
Pré-abertura: 5 a 8 de maio de 2026
Data: 9 de maio a 22 de novembro de 2026
(Fonte: Index)